Rios cariocas: entre o esquecimento e o futuro

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Rios cariocas: entre o esquecimento e o futuro

Com 267 cursos d’água em seu território, a cidade investe milhões para gerir seus recursos hídricos

POR MARIANA ALVIM

RIO – No ano em que o Rio comemora 450 anos, o país discute sua vulnerabilidade hídrica e o planeta celebra seu 22º Dia Mundial da Água, os rios cariocas continuam poluídos e distantes da população. Enquanto projetos pelo mundo buscam revitalizar o potencial urbanístico dos cursos d’água, na cidade olímpica predominam problemas de saneamento e interferências como dragagens e canalizações.

Para o futuro, um fio de esperança: o Rio Carioca, talvez o mais importante para a história da cidade, deve ser revitalizado em gestão compartilhada pelo estado e município. A iniciativa pode ser um símbolo, para iniciativas da sociedade civil, de uma mudança de relação entre o Rio e seus rios.

TIMELAPSE MOSTRA RIOS URBANOS

— Quando o rio é visto como lugar de vida e prazer, ele é preservado; quando é visto como mau elemento, a tendência é esconder — aponta o arquiteto Marat Troina, do Instituto de Arquitetos do Brasil do Rio de Janeiro (IAB-RJ).

Veja a seguir o que está sendo feito na gestão dos rios na cidade, que em 2014 consumiram R$ 821 milhões em obras.

Mesmo estando a alguns metros de distância, poucas pessoas que circulavam pelo Andaraí, na manhã de uma sexta-feira de fevereiro , sabiam apontar onde estava o Rio Joana. Ele, assim como muitos dos 267 rios e canais da cidade, teve trechos canalizados, aterrados, enterrados e retificados. A estes cursos d’água, que por décadas abasteceram e embelezaram o Rio de Janeiro, restou um destino nada natural.

A mais recente prova do mau estado dos recursos hídricos cariocas foi divulgada na última quarta-feira. Um estudo da Fundação SOS Mata Atlântica sobre a qualidadade da água apontou aumento de 66,7% em amostras consideradas ruins. Dos 15 rios analisados este ano, dez receberam esta classificação; os outros cinco apresentaram nível regular. Nenhum ponto com água coletada foi definido como tendo qualidade péssima, boa ou ótima.


Mapa mostra os rios no município do Rio de Janeiro – Editoria de Arte

Enquanto a prefeitura, por meio da Rio Águas, gastou R$ 821 milhões com obras em curso e concluídas em 2014, o saneamento — que exige estes tipos de interferência — continua sendo um problema crítico. Segundo o estudo de 2011 “Desafios do Saneamento em Metrópoles da Copa 2014”, do Instituto Trata Brasil e Fundação Getúlio Vargas, seria necessário um acréscimo de R$ 1,1 bilhão para universalizar a coleta e o tratamento de esgoto na região metropolitana do Rio.

Canalização é uma das intervenções em curso na Bacia de Jacarepaguá – Bárbara Lopes

No próximo ano, grandes intervenções em cursos d’água devem ser finalizadas para as Olimpíadas. O Rio Joana, por exemplo, será desviado em um túnel de 2,5 km — o maior para drenagem no Brasil, segundo a prefeitura. A Grande Tijuca concentra boa parte das obras em rios na cidade. Com investimentos de R$ 530 milhões, o Programa de Controle de Enchentes para a região envolve a construção de quatro “piscinões” — o primeiro, na Praça da Bandeira, já foi entregue — e a canalização de um trecho do Rio Trapicheiros. Com o desvio do Joana, um terço da vazão de água que chega ao Canal do Mangue desembocará na Baía de Guanabara.

Na Bacia de Jacarepaguá, as intervenções começaram há quatro anos. Ao todo, 14 cursos d’água devem ter implantados planos de macrodenagem, com valores que chegam a R$ 350 milhões. Oito obras já foram concluídas, entre elas a do Rio São Francisco. Os vizinhos comemoraram:

— Graças a Deus eles canalizaram esse rio. Antes, as enchentes e a limpeza do mato das margens dificultavam muito nossa vida — disse o vigilante Vidal Pereira de Oliveira.

AS IMAGENS DAS OBRAS NA GRANDE TIJUCA

  • Corredor para passagem de água do Rio Maracana até a Baía de GuanabaraFoto: Angelo Antônio Duarte / Agência O Globo/20-11-2014

  • A construção de um dos piscinões, na Praça Niterói, em novembro de 2014Foto: Angelo Antônio Duarte / Agência O Globo/20-11-2014

  • O Rio Joana será desviado em um túnel de 2,5 kmFoto: Felipe Hanower / Agência O Globo/27-02-2015

  • O Rio Trapicheiros, na Tijuca, terá, até 2016, dois reservatórios em seu percursoFoto: Felipe Hanower / Agência O Globo

  • O Rio Trapicheiros corta a Praça Hans Klussmann, na altura da Rua Saboia de Lima Foto: Felipe Hanower / Agência O Globo/27-02-2015

O futuro dos rios também pode ser influenciado por outro compromisso para os Jogos: a coleta e o tratamento do esgoto hoje despejado na Baía de Guanabara. Só que o Rio está longe da meta firmada com o Comitê Olímpico Internacional. O próprio secretário estadual do Ambiente, André Corrêa, já afirmou que não será possível cumprir a meta de saneamento de 80% do material que chega à Baía. No final de fevereiro, o governador Luiz Fernando Pezão declarou que o índice alcançou os 49%.

Já as ecobarreiras, coletoras de lixo na foz de rios que desembocam na Baía, estão longe do pleno funcionamento. No início do mês, uma reportagem do GLOBO mostrou que elas estão com financiamento insuficiente e retêm 150 toneladas de lixo por mês, contra 900 toneladas em 2012.

Unidade de Tratamento de Rio do Arroio Fundo, na Bacia de Jacarepaguá – Bárbara Lopes / Agência O Globo

Para amenizar a poluição das águas, uma alternativa encontrada foi a instalação de Unidades de Tratamento de Rios (UTRs). Segundo a recém-criada Secretaria Municipal de Saneamento e Recursos Hídricos (SMAR), existem, na cidade, cinco em funcionamento: no Rio Carioca, Piscinão de Ramos, Rocinha, Guaratiba e Arroio Fundo (esta construída dentro do plano de recuperação da Bacia de Jacarepaguá, com investimento de R$ 26 milhões).

Em geral, o tratamento consiste na barragem de lixo, lançamento de produtos químicos e flotação da matéria orgânica. O custo anual de operação e manutenção das cinco UTRs é de R$ 16,9 milhões. Pierre Batista, que comanda a SMAR e a Rio Águas, espera que um dia intervenções como dragagens e tratamentos de rios sejam substituídas pela destinação definitiva de dejetos.

— Eu não tenho dúvidas que esse dia chegará. O maior sinal nessa direção é a criação da SMAR, no início do ano, uma medida proativa da prefeitura. Lógico que temos que ter saneamento mas, por enquanto, não podemos parar de fazer dragagens, por exemplo — afirmou Batista.

Dados publicados na última quarta-feira pela Fundação SOS Mata Atlântica mostraram que a cidade está bem longe do dia em que terá superado a precariedade no saneamento. De 15 pontos de coleta em rios urbanos, dez apresentaram qualidade de água ruim (Rio do Pires, Canal de São Conrado, Canal do Jardim de Alah, Rio Carioca pré-tratamento, Canal do Mangue, Rio Comprido, Rio Trapricheiros, Rio Maracanã, Rio Joana e Rio Meier); outros cinco, regular (Canal Visconde de Albuquerque, Canal do Jockey, Rio Cabeças, Rio dos Macacos e Rio Carioca pós-tratamento). De acordo com a classificação em cinco níveis, não houve cursos d’água com qualidade péssima, boa ou ótima. Em comparação com a mesma pesquisa publicada no ano passado, o número de amostras com qualidade ruim subiu de 40% para 66,7%.


Funcionário da UTR Arroio Fundo mostra a água após processo de tratamento – Bárbara Lopes / Agência O Globo

O Censo 2010 ratifica a situação: a última pesquisa mostrou que 31,5% do esgoto residencial produzido na Região Metropolitana do Rio é despejado diretamente na natureza. No entanto, segundo especialistas, esse número é subestimado por se basear em entrevistas com moradores – que afirmam ter ligação com a rede geral de esgoto ou pluvial sem reconhecer que, na verdade, o material é coletado mas logo despejado em rios, lagoas e mares.

— Revitalizar os rios é urgente, e revitalizar as nascentes, mais ainda. O estágio da relação das políticas públicas brasileiras com estes cursos d´água é medieval. A solução ideal para eles já era para ter sido feita há muito tempo: fazer o saneamento e manter as matas ciliares. Se não der para revitalizar os rios por inteiro por conta da ocupação, temos que ao menos buscar imitar algumas características que eles tinham antes — argumenta Glauco Kimura, coordenador do Programa Água para a Vida da ONG WWF.

Construção de reservatório contra enchente na Praça Niterói – Ângelo Antonio Duarte

Não é à toa que os rios foram parar no nome da cidade. De acordo com a SMAR, 267 rios e canais cortam o território do município, totalizando 892,6 km de cursos d’água. Pesquisadores consultados pelo GLOBO estimam que ao menos 160 têm trechos canalizados e 52 possuem seções subterrâneas. Tem até um rio chamado Ninguém, em Oswaldo Cruz, que por ironia do destino está poluído e subterrâneo em vários trechos.

— Nas universidades da Europa nos anos 1970 teve início o debate sobre a renaturalização de rios. Enquanto isso, no Brasil, a academia estava ensinando os engenheiros a extingui-los. Poucas vozes dissonantes combateram isso. Com a Eco 92, houve uma mudança de concepção e os rios passaram a ser vistos como um ecossistema, por mais que esse conceito não seja aplicado pelas políticas públicas — aponta o ambientalista Sérgio Ricardo de Lima.

Glauco Kimura, da WWF, também remete ao passado para explicar a atual relação das cidades com seus rios.

— A maior parte da gestão de rios no Brasil passa por retificar, canalizar, aterrar e barrar. Nos anos 1970, alterar o curso de rios para eliminar as várzeas era moda. Mas elas ajudavam a amortecer enchentes. Agora, se gasta dinheiro para fazer o que a natureza fazia de graça antes. Os piscinões, por exemplo, simulam as várzeas – destaca o mestre em ecologia.

Segundo o secretário Pierre Batista, a urbanização avançada em diversas partes da cidade impede que medidas de renaturalização sejam realizadas. A prefeitura, no entanto, estuda pontos onde tais ações seriam possíveis. Batista destaca ainda que a Secretaria municipal de Meio Ambiente executa medidas compensatórias à canalização de rios, como o reflorestamento.

Para Júlio César Antunes, mestre em recursos hídricos e diretor do Comitê de Bacia do Guandu, é preciso equilibrar necessidades urbanas e ecológicas.

— Em lugares com a urbanização muito avançada, não tem como fugir da canalização, porque quando você ocupa, você impermeabiliza. O que se pode fazer é adaptar caso a caso, para diminuir o impacto, usando, por exemplo, revestimentos mais naturais. E, nos locais ainda não ocupados, fazer um planejamento urbano — opina.

Caso os gestores brasileiros precisem de inspiração para rever a relação das cidades com seus rios, existem no mundo interessantes iniciativas para se inspirar. Na Cidade do México, o escritório Taller 13 desenvolveu um projeto piloto para a revitalização de um dos principais rios urbanos: o La Piedad. No plano, estão vias paralelas para carros, transporte público e bicicletas, além de um corredor biológico e espaços de convivência.

PROJETOS DE REVITALIZAÇÃO DE RIOS URBANOS PELO MUNDO

  • Nas Filipinas, o Rio Pasig passa por recuperação contínuaFoto: ABS-CBN Foundation/ Miko Aliño / Divulgação

  • O Rio San Antonio, no Texas, está sendo renaturalizado em trechos mais afastados do centros urbanosFoto: Paseo del Rio Association / Divulgação

  • A recuperação do Rio Kallang, em Cingapura, aboliu a canalização do curso d’água Foto: Atelier Dreiseitl / Divulgação

  • Projeto na Cidade do México inclui um corredor biológico e espaços de convivência Foto: Taller 13 / Divulgação

Do outro lado do mundo, na Cingapura, existe até um programa nacional para tornar os rios mais bonitos e limpos. Fez parte do Active, Beautiful, Clean Waters o Rio Kallang que, através de projeto do Atelier Dreiseitl concluído em 2012, teve sua canalização abolida. Já na capital filipina de Manila, ocupações precárias poluíram e ocuparam por décadas o Rio Pasig. A união entre governos e organizações civis tem promovido, há alguns anos, ações como o reassentamento de casas, replantio de margens e fortalecimento da economia local.

O fomento a atrações e eventos às margens do Rio San Antonio, nos Estados Unidos, é uma das bases da íntima relação entre moradores e o curso d’água. Comissões populares têm participado da gestão do rio há décadas e promovem mudanças como a renaturalização de seus trechos menos centrais, em andamento.

A nascente do rio Carioca, localizada nas Paineiras – Custódio Coimbra / Agência O Globo/07-01-2015

Reivindicado por ambientalistas e urbanistas como símbolo do trato da cidade aos seus cursos d’água, o Rio Carioca aguarda, depois de décadas poluído e enterrado sob as ruas das Laranjeiras e Barão do Flamengo, um projeto de revitalização anunciado em janeiro pelo secretário estadual do Ambiente. Apesar da gestão de rios municipais como o Carioca ser de responsabilidade da prefeitura após convênio com o governo do estado em 2007, o plano prevê administração compartilhada entre Cedae, Rio Águas e INEA.

— Temos uma relação muito ruim com os rios. O Sena, em Paris, por exemplo, é elemento paisagístico usado para turismo e transporte. Claro que o Carioca não vai voltar ao seu leito natural, mas essa coisa de esconder o rio impede que a população fiscalize e tenha carinho por este elemento que deveria fazer parte da cidade — afirma Pedro da Luz Moreira, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil no Rio de Janeiro (IAB-RJ).

O engenheiro civil e diretor do Comitê de Bacia da Baía de Guanabara Alexandre Carlos Braga acredita que as discussões sobre a falta de abastecimento de água no país possam ajudar a recuperar os rios urbanos.

— Estou esperançoso de que esta crise seja um grande oportunidade para que a água que hoje carrega doenças possa ser consumida. Estamos tratando-a como um bem infinito — aponta Braga.

Em nota, a assessoria de imprensa da Secretaria Estadual do Ambiente frisou que o objetivo de revitalizar o Rio Carioca não é utilizá-lo para abastecimento, mas sim recuperar sua função urbanística e a qualidade da sua água.

OS RESQUÍCIOS DO RIO CARIOCA

  • Subterrâneo em áreas urbanas, o Rio Carioca ainda pode ser visto na Floresta da TijucaFoto: Felipe Hanower / Agência O Globo

  • Em alguns trechos, só é possível ver um filete d’águaFoto: Felipe Hanower / Agência O Globo/27-02-2015

  • Mesmo na floresta, o rio esteve envolvido em obras, como a construção dessa galeria decorativaFoto: Felipe Hanower / Agência O Globo

  • Hoje com aspecto de córrego, o rio que deu nome à população da cidade pode ser revitalizadoFoto: Felipe Hanower / Agência O Globo/27-02-2015

No entanto, desde as primeiras décadas de ocupação da cidade ao final do século XIX, o Rio Carioca foi a principal fonte de abastecimento de água do Rio de Janeiro. Os índios tamoios o cultuavam como fonte de virtudes. Nos primeiros anos de ocupação européia, o rio atraía marinheiros em sua foz, na Praia do Flamengo; a partir de 1723, passou a ter suas águas distribuídas por chafarizes, sendo o primeiro no Largo da Carioca. Além de dar nome à população, o rio levou também à construção do Aqueduto da Carioca, ou os Arcos da Lapa. A obra é, segundo o historiador Milton Teixeira, uma das mais grandiosas do período colonial brasileiro.


O Rio Carioca em pintura de 1827 – Autoria: Barão de Löwenstern / Acervo Milton Teixeira

— A visão nesta época era de que sem água, não havia desenvolvimento. A preocupação não era com a ecologia, e sim com o abastecimento. Ainda assim, foi com Dom João VI que surgiram as primeiras leis para proteção de mananciais e com Dom Pedro I que foi levado à frente o reflorestamento do Parque Nacional da Tijuca — afirma o historiador.

Trecho do Rio Carioca – Custódio Coimbra / Agência O Globo/24-06-2012

Por trás da mobilização da prefeitura pela revitalização do Carioca estão grupos que encontram diferentes formas para reivindicar mudanças. Foi com música que a Orquestra Cyclophonica realizou uma performance de bicicleta ao longo do trajeto, ainda que invisível, do rio no dia do aniversário de 450 anos da cidade. Partindo do Aterro do Flamengo em direção ao Largo do Boticário, dez instrumentistas tocaram repertório que foi do indígena ao barroco — uma forma de relembrar a própria história do rio. Eles até buscaram descobrir qual nota representa o som do curso d’água em sua condição atual, em meio a galerias subterrâneas: deu algo entre Si Bemol e Dó.

— Neste ano, estamos realizando a “Volta ao Rio em 450 anos”, na qual vamos fazer 24 passeios sonoros pela cidade, em seis meses e mais de 30 bairros. A cada apresentação, fazemos uma prospecção de aspectos históricos e problemas cotidianos da região. Foi nesta pesquisa que decidimos abordar o Carioca — conta Leo Fuks, líder do grupo. — É chocante ver o rio passando por tanto concreto e laje. Eu mesmo vivi a vida inteira perto dele e nunca tinha me dado conta que ele estava ali.

Tornar o curso d’água — e sua história — mais evidente para a população é um dos sonhos do movimento “Carioca, o rio do Rio”, formado, no ano passado, a partir de um projeto educativo da instituição Planetapontocom. Moradores, associações e pesquisadores têm se reunido a cada 15 dias para lutar por ações como a despoluição e o replantio das margens. Depois de realizarem a Caminhada do Redescobrimento, em dezembro, o grupo planeja para este domingo, dia 22 de março, uma intervenção no reservatório da Mãe D’água, às 10h.

— Obviamente, não pretendemos quebrar as ruas das Laranjeiras e Cosme Velho, mas acreditamos que o rio pode ser renaturalizado na medida do possível. A ideia é criar um case com o Carioca e replicar a experiência em outros rios da cidade. Os governantes reagem à sociedade, por isso temos que nos organizar e nos pautar — explica a jornalista Silvana Gontijo, à frente do movimento.

Para os membros do Instituto Interdisciplinar Rio Carioca, criado em 2008, dialogar com órgãos públicos faz parte do cotidiano: o grupo participa de comitês de bacias, núcleos de gestão participativa estabelecidos em 1999 pelo Sistema Estadual de Gerenciamento de Recursos Hídricos. A associação visa à preservação de recursos naturais como a água, tendo rio que o nomeia como símbolo de luta.

— O Rio Carioca representa hoje uma falta de compromisso que muito nos entristece. Sua única função passou a ser de servir de meio para desaguar o esgoto no mar. Ele continua a nos mostrar que somos uma cidade sem políticas de desenvolvimento sustentável, saneamento, saúde e educação — aponta a contadora Lucimar da Silva Fernandes, uma das diretoras do instituto.

Construção sobre rio na Tijuca – Felipe Hanower / Agência O Globo

Apesar do valor histórico para a comunidade do Andaraí, o Largo da Pedra da Mina era apenas um exemplo de como sua população tratava o rio que atravessa os terrenos e ladeiras do lugar. Dali sai uma nascente do Rio Joana (também conhecido como Andaraí), que, por anos, fluiu sob um amontoado de lixo. Foi com a mobilização do casal Rosângela Tertuliano e Luís Paulo que se iniciou o combate à poluição ambiental. Em seis sábados de 2013, moradores e voluntários tiraram 1.500 sacos de entulho de lixo do Largo.

Apesar de recolhido e ensacado, o material levou seis meses, segundo os moradores, para ser recolhido pela Comlurb. Já limpo no início de 2014, o lugar nunca mais recebeu a mesma quantidade de lixo. Agora, ele tem sido palco para brincadeiras infantis, para a conversa entre adultos e se prepara para receber uma galeria de arte.


Mutirão de limpeza no Largo da Pedra da Mina, no Andarai – Divulgação

Cansada de ver resíduos se amontoando nas margens do rio, Rosângela passou a espalhar cartazes de conscientização pela comunidade, a organizar mutirões de limpeza e a contactar, cotidianamente, a Comlurb e a prefeitura, em 2011. Dois anos depois, o trabalho passou a receber apoio de parceiros como a Fundação Getúlio Vargas e Faculdade Batista, além da consultoria e participação do historiador Dell Delambre, que cursa doutorado em Museologia.

Delambre levou à iniciativa o conceito de “Ecomuseu”, surgido na França. Com definição flexível, a ideia valoriza a participação comunitária e a interação com o próprio ambiente, seja ele natural ou cultural. Assim, surgiu o Ecomuseu Amigos do Rio Joana.

— Usei muito a história para tocar o coração das pessoas. Falei de como os tamoios respeitavam o Joana e o usavam para a pesca e navegação. Antes, as pessoas nem sabiam o nome do rio. Agora, o defendem — lembra Rosângela, lamentando, porém, que o curso d’água ainda receba esgoto da rede entupida e de ligações clandestinas.

O próximo passo do projeto é inaugurar, em junho, uma galeria de arte no Largo da Pedra da Mina. Nos próximos meses, moradores ajudarão a recolher material sobre a história da comunidade e a moldar o espaço e conteúdo a serem apresentados.

Tudo isto sob um conceito desenvolvido por Delambre para delinear um modelo de transformação através do tripé formado por um profissional da área social e de sustentabilidade, de uma organização local e de uma empresa preocupada com sua função cidadã.

— Não queremos fazer apenas um trabalho voluntário. Este é um projeto para ser replicado e para ter a capacidade de resolver grandes problemas sociais — afirma Delambre, frisando a importância da Entéuxes Engenharia neste tripé.

À jornalista e atriz Ariane Viegas cabe o papel de promover, através da arte, a reflexão e a participação dos moradores. Está na agenda deste ano, por exemplo, a realização de uma oficina de teatro explorando o samba “Tempo de Don Don”, que destaca um personagem do Andaraí.

A história também é protagonista da transformação nas “Rodas de memória”, quando, mensalmente, moradores se reúnem para contar e relembrar narrativas afetivas da comunidade. Foi nesses encontros que muitos descobriram, por exemplo, que o Rio Joana dava água aos moradores que circulavam com baldes pelas ladeiras e que a escola de samba Flor da Mina homenageia o largo há pouco tempo dominado por lixo.

A represa de Paraibuna, em São Paulo, durante estiagem, em janeiro de 2015 – Michel Filho / Agência O Globo/22-01-2015

Quando a crise hídrica tornou-se manchete nos principais noticiários do país , o assunto tinha um ar de notícia previsível para o cineasta paulista Caio Ferraz. Desde 2007, ele pesquisa a relação de São Paulo com a água. Nesta época surgiu a ideia de fazer o filme “Entre rios”, produzido em 2009 como trabalho de conclusão do curso de Audiovisual do SENAC-SP. O documentário conta a história da capital paulista segundo seus cursos d’água.

Em entrevista por e-mail, Caio conta que, curiosamente, o vídeo tem mais acessos na internet quando há enchentes e que percebe, de forma embrionária, um desejo do paulistano por uma cidade mais humana e sustentável. Ele ainda anuncia seu próximo projeto, cujo lançamento está previsto para este mês: uma série de vídeos para a internet sobre a crise da água com o sugestivo nome “Volume vivo”

Como você chegou ao tema da água em São Paulo?

Comecei a pesquisar em 2007. Na época, estava fazendo um documentário sobre lideranças comunitárias às margens da represa Billings e comecei a estudar o processo de expansão da cidade de São Paulo. Me chamou atenção como a água havia sido determinante na construção da cidade desde sua fundação até o momento atual e como sua presença não era mais notada, como conscientemente havíamos escondido tudo.

O documentário passa a mensagem de que São Paulo deu as costas para os seus rios ao longo de décadas. Você acredita que este posicionamento mudou de alguma forma?

Acredito que o modo como o paulistano vê a cidade está mudando. São Paulo cresceu muito rápido em muito pouco tempo. Milhões de imigrantes vieram pra cá em busca de trabalho e dinheiro, nunca houve muita sensação de pertencimento ou uma preocupação com a qualidade de vida. A cidade foi construída como uma máquina a serviço deste fluxo econômico. Acho que existe hoje um grupo de pessoas que gosta de morar em São Paulo, por aquilo que a cidade oferece, mas acredita que ela precisa se tornar mais humana e sustentável. Os rios são o grande símbolo daquilo precisamos recuperar.

É muito deprimente quando depois de alguns dias fora de São Paulo, você volta e quase necessariamente entra na cidade pela Marginal Tietê e vê a condição do rio. Você chega e dá vontade de ir embora.

Quais são as alternativas para intervenções artificiais como a canalização e retificação de rios nas cidades?

A canalização é inevitável em uma cidade. Os rios são vivos, mudam seu leito constantemente, então, dentro da cidade, você tem que controlar sua área. Mas existem diversas maneiras de fazer isso. A tradição brasileira é retificar, cimentar as margens e se possível até enterrar, fazendo a água correr o mais rápido possível para longe da nossa vista. Porém, existem diversos tipos de canalização que respeitam mais os rios como organismos vivos, oferecendo área para seu espraiamento, respeitando mais suas curvas e deixando as margens mais permeáveis.

Como foi a repercussão de “Entre Rios” antes e depois da crise hídrica?

O “Entre Rios” tem sido bem divulgado ultimamente com a crise da água mas, na verdade, não tenho sentido muita diferença. Há uns dois anos atrás ele começou a ser muito divulgado nas mídias sociais aqui em São Paulo, e em toda época de enchente a quantidade de visualizações aumenta muito.

O que é o projeto “Volume vivo”?

“Volume Vivo” é uma série de videos para internet que tem como objetivo aprofundar a discussão sobre a crise. É um projeto independente, financiado coletivamente. Serão quatro episódios, de 10 a 20 minutos, abordando diferentes aspectos do problema. Os episódios serão disponibilizados no site do projeto. Pretendemos lançar o primeiro episódio no dia 24 de março.

A temática que aborda a relação das cidades com os seus rios nas artes é bem trabalhada?

A poluição e a escassez de água é um dos grandes problemas que nossa sociedade enfrenta atualmente, então é natural que a arte reflita esta questão. Aqui em São Paulo, temos alguns artistas com trabalhos muito interessantes. Um é o Zezão, grafiteiro que desenha na galerias de águas pluviais da cidade, e outro o Eduardo Srur, que fez interessantes intervenções nos rios. Este tema está tão em destaque que, no ano passado, ocorreu uma mostra de arte focada no trabalho de artistas que trabalham este tema, chamada Mostra Rios e Ruas.

Matéria retirada do site : http://oglobo.globo.com/rio/bairros/rios-cariocas-entre-esquecimento-o-futuro-15652879#ixzz3VVQukD5z

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Rio Carioca

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